Trânsito na marginal – crônica urbana

Transito na marginal tiete - cronica urbana

Transito na marginal tiete - cronica urbanaO que vai na cabeça de um trabalhador, no final da tarde, preso no transito da marginal tiete…

Apenas um “ensaio de crônica” Com um pouco de humor. Lembre-se dos seus pensamentos quando está preso no transito. Não é assim mesmo? Ou talvez pior. O sujeito sai da empresa às e chega mais de oito da noite em casa, sem outra opção do que aquele transito infernal da marginal tietê. Se eu exagerei… coriija-me nos comentários.

 

Cinco da tarde. Bater o ponto e vazar. Cinco e quinze. Marginal Tietê. Totalmente parada.

“Que merda… todo dia isso… tô ferrado… chegar em casa umas oito… oito o escambau! Umas nove… pobre é uma bosta mesmo…”

Olhando o carro do lado.

“Putz cara zoado… parece o cão chupando manga… tú é feio hein mano? vixi…”

Voz no rádio: “Obama é eleito presidente do Estados Unidos”

“Rererere… o neguinho não é fraco não, mano… deve ter um montão de branquelo por lá pê da vida… se lascou, mano… agora o neguinho vai ficar é mais quatro anos aí, tá ligado… sem fazer bosta nenhuma também… dá tudo na mesma… tá brabo porque, trouxa? … mas que é legal é legal… o neguinho tá zoando os cara… huashuashuas… “

Voz no rádio: “…. a presidente Dilma vai…”

“Aí não, mano… é… no dos outro é refresco… vou colocar é um Cd… essa merda não anda nem lascando… deixa ver… Restart.. que merda é essa? uhmmm… Roberto Carlos em Ritmo de aventura… vai esse… nem lembro disso mais…”

Coloca o Cd. Voz de RC: “O ponteiro agora marca 120… por um momento tive a sensação de ter você ao meu lado… … … eu vou, voando pela vida…”

“Vai te lascar, cara! cento e vinte na PQP! Tá louco, mano? .. tirar essa merda… que foi? vai buzinar na casa do chapéu mano! Tú é cego? Tudo parado e você com essa mão de merda nessa buzina de merda… vai te lascar!”

“Colocar outro, xo vê… Victor e Léo… esse eu conheço…acho… hummm… Borboletas? Que bosta de música será essa? Borboleta, libélula… coisa de viado… xo vê outro… Ah! Eric Clapton… esse é fera…”

Troca o Cd. Voz de Eric Clapton: “She don’t like… Cocaine…. tara raram taram…”

“Legal… rerere.. os cara são fera, mano… olha a guita… tara raram tarammm … é, mano… que será que o cara fala? chidonlai, chidonlai, chidonlai… coquei… txara raram txarammmm….”

Olhando as unhas.

“Nossa meu! Preciso cortar essas unhas… é… quem vive lixando unha é aquela secretária nova… eita bichinha gostosa, sô! Aquele cagador empinado deixa qualquer um doido, mano! … Rerere… fosse a unha dela eu cortava e lixava todo dia, brother… até lambia… é gostosa demais… vixi!”

“Caraca… vinte pras seis já… ainda tô aqui… deve ter alguma merda aí na frente, sei lá… hoje tá demais… algum fresco bateu na traseira  de outro e os dois filho duma égua não saem dali enquanto a polícia não chegar… povo bêsta de merda… a polícia devia chegar e baixar a borracha nos trouxa… se danar… meu! Coloca essas merda desses carros no acostamento, mano!… vixi… tô viajando na maionese… nem vi nada e já tou… que se lasque também… tem ninguém vendo nem ouvindo… bom… só eu né? E Deus… falando nisso… podia aproveitar e fazer uma oração bem comprida… ah, Deus, não dá, mano… eu tô é injuriado… todo dia essa bagaça aqui, meu… zoado… orar agora só vai sai reclamação… té mais, Deus… em casa eu ligo de novo..”

Refrão de “Smoke on the water” do Deep Purple – toque do celular

“Vixi, que susto, mano… vai te daná, celular do caraco!”

– Que qui foi mulher?

– …

– Tô na marginal, meu… tudo parado essa bosta aqui…

– …

– Não, meu… tô no transito não. Tô na boate tomando uísque com uma gostosa sentada no colo! Tá louca? Se liga, meu!

– …

– Passar no mercado pra comprar leite? Zoado hein? Que? Ah… cê esqueceu… sei… falou…

–  …

– Tá legal, falou, falou, meu! Eu passo..

– … … … …

– Tá bom, meu… não precisa chorar também, né? Já tou quase chegando… tá, tá… tchau.

Olhando pro celular.

“Mulher… Ô bicho zoado, sô. Vai no mercado, esquece metade das coisas, eu tenho que mudar o caminho depois dessa merda toda, e ainda por cima chora… porque eu não amo ela… caraca, mano! Não, zoada… eu amo é essa merda que não anda… catso, meu! seis e meia já, mano… e ainda tô… vixi, mano… não andei nem cinco quilometro, mano… tô ferrado hoje… e ainda tem que comprar leite… quem que toma isso? Ah, é… as crianças… pô, não pode passar um dia sem esse negócio… coisa mais sem graça… caraca! Agora que lembrei… acabou a cerveja em casa, só tem três latinha… vou ter que passar no mercado… eh, trouxa… não vai esquecer o leite, senão tú tá f…”

Olhando para o carro do lado.

“Nossa, mano… que gata! A filha da mãe nem olha de lado… mó carrão… morenaça da hora, mano! Putz se estivesse num caminhão dava pra dar um bico nas pernas… será que tá de mini-saia? Nossa, meu! Deve ser maior gostosa, mano… Que merda… a fila dela tá andando… ferrou…colocar outro Cd… esse é só a coquei mesmo… o resto é pra encher linguiça…”

“Xá ver… Luan Santana… legal… esse moleque canta pra caraco…”

Voz de Luan Santana: “Amar não é pecado.. e se eu…”

“Ah, vai te lascá mano! Amar não é pecado… que bosta de frase é essa, meu! Tanta merda por aí pra você dizer que não é pecado, e vem com essa? Vai cagar no mato, mano. Pecado é cantar isso aí, brother… moleque zoado do cacete! xô ver… próxima música…”

Voz de Luan Santana: “Sua consciencia não, vai te deixar dormir, pois ninguém mais faz palhaçada pra te ver sorrir…”

“Moleque de merda mesmo… agora me fez lembrar da Zenáide… putz como era boa, mano! E que qui adianta, seu merda, a consciencia dela não deixar dormir, nem comer nem bosta nenhuma… agora já tá com o grandão lá, né mano… meteu o pé na minha bunda… cara… como era gostosa… vixi!”

Olha o carro do lado. O motorista aponta alguma coisa.

“Ih, pronto… quer ver que tou com o pneu furado? Que qui é mano? Hã? Merda… a fila dele tá andando… lascou… Encostar aqui… nem ca pôrra, mano, tá louco! Perto da favela… vixi! Tô fora. Simbora com pneu furado mesmo, sei lá… mas nem parece que tá furado… será que tá furado? caraca…”

“Ei, caraco… tô com mijaneira… essa merda não anda… que qui é aquilo? Ih… lascou… é acidente… por isso que essa bosta não vai.. que foi que eu disse?”

Mudando de faixa porque viu uma loiraça que bateu o carro.

“Mano! Que loiraça… bateu o carro, coitada… essa aí até sem óculos… consertava.. Qui nada! Dava logo um carro novinho pra ela.. olha só… e o guarda só nas finalidade… ih, caraca… foi pra trás do carro… não dá pra ver… tomara que essa merda não ande justo agora… ah, voltou… vixi, tá vindo pra beirada… vou abrir o vidro…”

– oi… que azar hein?

A loiraça: “Cê não tem o que fazer não? Vai andando, palhaço!”

O transito anda.

“Já virou zoada… mulherzinha da pá virada,  sô… vai te lascar… ah, meu… amanhã mesmo… aquele Zé Mané do Carlão vai ver… vou pedir aumento… se não der, saio daquela merda de empresa de merda… e ainda falo um montão na orelha daquele panaca… trouxão… pensa que é o gostosão, né? Cê vai ver amanhã, mano… vou chutar o pau da barraca, brother… tú vai ficar com cara de bunda, zoado. Po, mano… seis anos carregando aquela merda nas costas… que nada… chega, mano. É amanhã que… putz! que merda… tá andando e eu parado aqui… vixi… limpou a bagaça… agora vai…”

“Xo ver… leite… rapaz, qual que é… tem uns trezentos tipos… desnatado… sem gordura, tipo A, tipo B… hãã… C é mais barato… vou levar esse mesmo… um litro dá… acho… ops… a ceva, mano… xa ver… caixinha com doze… não… vinte e quatro tá na promoção… vou levar essa… economizar uns trôco, mano… beleza… pronto… bora!”

Abre a porta, dá de cara com a mulher:

– Cadê o leite?

– Tá aqui, mulher, rerere… pensou que eu ia esquecer…

– Tipo C? Tipo C? C????? Ah, vai esse mesmo… você não sabe nada… pediu aumento pro Carlão?

– Vixi.. hoje não deu, mulher… amanhã…

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